Dora Kramer, a demotucana

8 out

Não seria nada demais se a jornalista Dora Kramer declarasse que é uma adepta fervorosa das concepções neoliberais, que é militante da frente demotucana, que vota em Serra. Nada demais. O que impressiona é que ela seja tudo isso, e exerça o seu ofício diário como se fosse uma observadora imparcial dos acontecimentos. Nada mais falso. Ela sequer toma cuidados formais, sequer simula algum distanciamento, sequer segue os manuais de jornalismo, que recomendam fidelidade aos fatos. Dora Kramer tem lado, tem posição política, e, o que é pior, deixa trair permanentemente uma raiva incontida contra o PT, contra Lula, contra quaisquer projetos de transformações da realidade brasileira.

O artigo dela do último domingo, 1 de agosto, publicado em A Tarde, é a revelação do quanto ela milita a favor da frente demotucana, do quanto defende Serra, e quando ela cultiva de preconceitos, de discriminação contra aqueles que eventualmente pertençam ao mundo culto, do qual ela acredita, isso, acredita mesmo, fazer parte. E um texto que mostra que tipo de concepção ela possui de liberdade de imprensa. É como se ela dissesse: não importa que a imprensa minta, difame, calunie, fuja dos fatos. Ela pode fazer tudo isso sem que se submeta a quaisquer controles por parte da sociedade.

Ela faz parte daquele time de jornalistas que acreditam ter parentesco com Deus, com alguma entidade divina, que não podem ser questionados. A imprensa aparece para esse time como uma instituição acima da sociedade, que tudo pode, inclusive tomar posição política sem se revelar, e falar o que quiser e bem entender, e mentir, deturpar, caluniar, sem que nada lhe aconteça. Por isso, celebrou o fim da Lei de Imprensa, decretado pelo Supremo Tribunal Federal no ano passado. O Brasil é o único país dos inscritos na ONU a não contar com uma Lei de Imprensa. Por isso, agora, mais do que antes, o cavalo desembestado da mídia pensa poder fazer o que quiser.

No texto, demonstra sua indignação com a atitude tomada pelo PT de sempre reagir a quaisquer absurdos que venham a ser praticados pela mídia. E tem reagido de modo especial à revista Veja, que há muito tempo abandonou o jornalismo em sentido estrito para se transformar num braço da extrema-direita brasileira e latino-americana. Ela acha correto o vice de Serra afirmar que o PT tem ligações com terroristas colombianos e com o narcotráfico. Afirma que a concepção do PT sobre a liberdade de expressão é tudo aquilo que não condiz com o interesse do partido. Outra vez, nada mais falso. Fosse assim, e o PT teria que viver às portas dos tribunais. Grande parte da imprensa brasileira, decididamente, é contra o PT, e, sem dúvida, contra o governo Lula, e contra a candidata do PT, Dilma Rousseff. Ela milita cotidianamente contra o PT e contra o governo do presidente Lula. E nós temos suportado isso com serenidade e firmeza, e distante de quaisquer tentações autoritárias, ao contrário do que ela insinua.

Ela se insurge contra o fato de o presidente do nosso partido, José Eduardo Dutra, ter dito que as cadeias de rádio televisão são pouco afeitas ao pluralismo. Será que houve algum exagero no que disse Dutra? Será que não é mais que evidente o discurso único das redes de televisão quando se trata da política, salvo momentos excepcionais, salvo instantes em que a exceção aparece para confirmar a regra? Nós temos afirmado, ao longo de nossa história, o respeito profundo que temos pela democracia, o que inclui naturalmente a mais ampla liberdade de expressão, a mais ampla liberdade de imprensa, e não há um único momento na história do partido em que tenhamos nos apartado disso. Nascemos sob o signo da democracia, contra qualquer ditadura, inclusive deixando de lado a perspectiva da ditadura do proletariado, e disso nunca nos afastamos.

Agora, pretender que não critiquemos a natureza profundamente partidária da nossa mídia, aí também já é demais. Pretender que não flagremos a obscenidade do partidarismo de uma Dora Kramer, aí tenha dó. Nós vamos continuar exercendo nosso direito de crítica a uma imprensa que não respeita sequer os manuais que ela própria edita para servir de guia de procedimento cotidiano. Os fatos não servem mais de base ao trabalho de nossa imprensa. A opinião não vem sustentada pelos fatos. Aparece para sustentar uma posição política, e não importa que se calunie, invente, distorça os fatos. O caso das Farc e do narcotráfico é uma evidência disso, e ela, Dora Kramer, defende esse procedimento, como se fosse parte natural do jornalismo. Natural para ela. Não para quem leva o jornalismo a sério.

Ela se levanta contra a proposta do Conselho Federal de Jornalismo, como se esta fosse uma proposta do PT ou do governo do presidente Lula. Finge desconhecer que essa é uma proposta antiga da Federação Nacional dos Jornalistas. Nada mais natural do que uma profissão regulamentada contar com um Conselho Federal, como tantas outras profissões. Dora Kramer pretende que o PT se renda ao autoritarismo do discurso único das grandes redes de comunicação, ao seu discurso e prática nitidamente golpistas, discurso e práticas que vem de longe, como nossa história e uma vasta bibliografia podem comprovar à saciedade.

E o seu espírito de Casa Grande, sua mentalidade de elite retrógada, ainda destila a raiva contra o povo, e o faz pretendendo atingir o presidente Lula, e aí ela espuma de ódio e fala pretensiosamente em agressões ao idioma, linguagem chula, esse festival de besteiras, deixando trair seu ódio ao presidente-operário que se tornou uma das maiores lideranças mundiais e a maior liderança popular de nossa história. Essa liderança Lula conquistou apesar da mídia, e não por causa dela, como Dora Kramer sugere. Pela mídia, Lula nunca seria presidente, nunca conquistaria um segundo mandato e nunca elegeria a sua sucessora, e isso, creio, o povo brasileiro o fará.

Será que ela, Dora Kramer, seria capaz de pensar numa mídia que enfrentasse uma sociedade ativa, uma comunicação que conseguisse expressar a pluralidade imensa da nossa sociedade, sua fantástica criatividade cultural, as muitas vozes que estão até hoje caladas por uma mídia hegemônica que não admite a existência desse Brasil tão rico, tão diverso? Não, isso não cabe no horizonte pequeno, tacanho, demotucano de Dora Kramer. Ela se pensa culta ao lado dos demotucanos. Se pensa culta, ela se acha, como diz o nosso povo. Quem sabe se veja como uma erudita diante desse povo chulo que, na visão dela, agride o idioma toda hora. Se junta ao resto da mídia para tentar orientar uma oposição aparvalhada, apavorada com o crescimento de Dilma, perdida diante da popularidade de Lula, diante do carinho do povo brasileiro com o projeto que está efetivamente mudando o Brasil.

Nós ainda temos muito o que caminhar para democratizar a mídia no Brasil. A democracia, para ser democracia autêntica, ainda tem que dar esse passo. Não podemos ter uma meia dúzia de senhores a organizar o discurso de nossa existência. A mídia no Brasil constitui-se num partido político. Cristina Kirchner fez aprovar uma lei democrática sobre a mídia argentina. Nós teremos que chegar a isso. E não para restringir a imprensa, não para diminuir o peso da mídia. Mas, para aumentar o número de emissores, povoar o Brasil de emissoras de rádio e televisão pequenas e médias, de rádios comunitárias, para assegurar uma comunicação que se funde minimamente na verdade, que respeite os fatos, que assegure o direito à pluralidade, que não permita que famílias poderosas controlem tantos veículos ao mesmo tempo.

Dora Kramer apenas expressa a visão da Casa Grande, a visão da direita brasileira, a visão de nossa mídia hegemônica, que tem sido enfrentada pela sabedoria do povo brasileiro, que não se deixou enganar por ela nas últimas eleições e não se deixará também nesta.

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