Quanto pesa uma bolinha de papel?

28 out

Qual o preço que se paga por subestimar a inteligência alheia? Quem lê o noticiário do segundo turno da eleição presidencial sabe que tanto PT como PSDB perceberam que o episódio da bolinha de papel significou pelo menos quatro pontos na cabeça de Serra, que viu aumentar a distância que o separa da líder Dilma Rousseff. Não por acaso, os tucanos retiraram a história dessa esfera de celulose da propaganda eleitoral. O efeito desejado não foi alcançado.

É interessante notar que o efeito da bolinha foi mais sentido nas regiões Sul e Sudeste, onde o acesso à internet é maior. Foi na rede que a farsa da bolinha foi desmascarada. Vídeos no YouTube mostraram que nada mais pesado do que algumas gramas (no máximo três ou quatro) atingiu a calva do tucano.

Vamos deixar de lado os detalhes técnicos da trajetória, peso e velocidade da bolinha e se concentrar no seu efeito: a farsa foi rapidamente desmontada e até porque as pessoas, em geral são inteligentes. Por causa da subestimação da inteligência popular, cresceu uma natural indignação contra quem pensa que a maioria é burra e manipulável. Esse foi o primeiro efeito. O segundo foi mais elaborado e veio quando os eleitores passaram a refletir sobre as razões que um candidato se apega a expedientes limitados como o da bolinha na tentativa de faturar eleitoralmente.

José Serra, de fato, tem uma história. Em 13 de março de 1964 foi o orador mais incendiário no comício em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, quando o então presidente João Goulart defendeu as chamadas reformas de base. Era então presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes). Os setores conservadores, inclusive os das forças armadas, usaram o comício da Central como um dos pretextos para o golpe de 1º de abril, dias depois.

No imaginário de muita gente, durante anos, Serra construiu sua carreira política a partir de sua posição progressista manifestada naquele comício. Foi por causa disso que o líder estudantil de esquerda, membro da Ação Popular, se exilou. Sobre a volta de Serra e sua reentrada na política institucional brasileira, há divergências. Ele próprio e seus defensores juram que está por trás de projetos importantes como o dos remédios genéricos, do programa contra a AIDS e outras ações do governo Fernando Henrique Cardoso. Outros colocam em dúvida tais troféus, que seriam de autoria de outros como os ex-ministros da Saúde Jamil Haddad e Adib Jatene (este ainda na ativa e ferrenho acusador de Serra).

Mas se Serra é tão produtivo como político e administrador, deixou a desejar ao registrar como programa de governo dois textos de discursos feitos meses antes da campanha. Talvez essa seja a questão: sem metas, propostas claras, diretrizes de governo, Serra tenha que se agarrar a factóides tão leves como o da bolinha de papel. É essa sensação que deve estar por trás da perda de pelo menos quatro pontos nas pesquisas divulgadas três ou quatro dias antes da eleição.

Ao mirar um imaginário contingente de eleitores pouco informados que, hipoteticamente, veriam o episódio da bolinha de papel como a prova de que o candidato tucano era vítima de forças do mal, Serra encontrou um eleitorado maduro, sensato e que não se deixa levar por apelos emocionais de valores duvidosos. Este é o peso da bolinha de papel do Campo Grande, zona Oeste do Rio de Janeiro.

P.S.: depois de José Serra, quem vai pagar as contas com os eleitores será a velha imprensa, a começar pela Rede Globo.

Por: Walter Venturini – http://www.abcdmaior.com.br

 

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